terça-feira, dezembro 26, 2006

Alentejo Blue


Não deixa de ser curioso que o New York Times tenha elegido entre os 100 livros notáveis do ano uma obra sobre Portugal: o Alentejo Blue, de Monica Ali. Este livro dá a conhecer a vila imaginária de Mamarrosa, situada algures na região alentejana e descrita sob a perspectiva ficcionada de uma jovem romancista britânica.

Ali, Monica (2006). Alentejo Blue. Londres: Doubleday, 299 p.

Ler Devagar II



Existe um sem número de boas razões para ir para casa, ler na cama...




New York Times - Ilustrações Jules Feiffer (04.Dez.2005)

domingo, novembro 26, 2006

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco


conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

domingo, novembro 05, 2006

Segue o teu destino

Mstislav Rostropovich, Salvador Dali (1904-1989)


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.


A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.


Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.


Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.


Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

domingo, outubro 29, 2006

Ontem não te vi em Babilónia

25 de Outubro à noite


Lobo Antunes numa noite repleta de espontaneidades, revela o lado humano e solto do escritor consagrado. A conversa fluiu com muito humor, entre histórias de vida e de vidas, memórias e recordações de infância e personagens rocambulescas... Das várias afirmações, destaco aquela em que Lobo Antunes se referiu ao acto de escrever e aos requisitos necessários para se ser escritor: “solidão, orgulho e paciência”. Solidão, por exigir bastante isolamento (imprescindível à concentração). Orgulho, por implicar elevada força de vontade e persistência. Paciência, por envolver muitas privações, sempre.

Quando estou muitas horas a sentir o tempo que não sei para onde vai no relógio eléctrico, sei que passa por mim num zumbidinho leve, começo a distinguir coisas no escuro, primeiro os móveis que deixaram de ser móveis e perderam o nome e depois o tecto, as paredes, o quadrado mais claro da janela e o rectângulo mais claro da porta esses sim ainda tecto e paredes e janela e porta e eu todavia perdendo-os também e a esquecer o que são, parece que a alma me sai num fuminho e tenho medo que não regresse mais, que ficando sem alma fique sem a minha vida inteira e continue a respirar como respiram as cortinas e as árvores que por mais que nos falem não as podemos ouvir, não nos preocupamos no caso por exemplo de se assustarem, sofrerem, não fazem parte de nós, andam por aí e acabou-se, quando estou muitas horas acordada a minha cara principia a tornar-se da mesma matéria que as tais coisas do escuro e deixa de ser cara, os braços deixam de ser braços consoante os móveis deixaram de ser móveis e perderam o nome

(o que chamar à minha cara, aos meus braços?)

ANTUNES, António Lobo - Ontem não te vi em Babilónia, 2006

sábado, outubro 14, 2006

Conto das Arábias

Foto: Lun@tic, Casa Milà. La Pedrera, de Gaudí

Era uma vez um conto das arábias...

ALI BABÁ E OS QUARENTA LADRÕES


Há muito, muito tempo, numa cidade lá para os lados do Oriente, vivia Ali Babá, que ganhava a vida comprando e vendendo coisas nas aldeias próximas à sua. Uma bela tarde, ao regressar a casa, viu uma longa caravana de quarenta homens carregados com grandes caixas, que as puseram no chão ao chegarem junto a uma rocha. Então, espantadíssimo, Ali Babá viu o chefe aproximar-se da parede rochosa e gritar:

- Abre-te Sésamo!Como que por milagre abriu-se uma grande fenda na rocha e apareceu uma enorme gruta, no interior da qual os homens depositaram as caixas e saíram.

- Fecha-te Sésamo!- gritou o chefe. A parede voltou a fechar-se e foram-se embora.Quando Ali Babá viu que os homens já iam longe, correu para a grande rocha e gritou:

- Abre-te Sésamo! Entrou na gruta e viu, espantado, que ela albergava um precioso tesouro, proveniente dos roubos que os homens vinham praticando nas cidades da região. Então carregou o que pode num saco e voltou para casa.

No dia seguinte, pedindo segredo, contou tudo ao seu irmão mais velho Kasim.Logo que a noite caiu Kasim, sem dizer nada a ninguém, colocou os arreios e alguns sacos nas mulas e dirigiu-se à gruta, sonhando durante todo o percurso que era muito, mas mesmo muito rico. Porém, quando tinha os sacos quase todos cheios, os ladrões regressaram para guardar mais coisas roubadas e, ao verem-no, pois não havia como esconder-se, condenaram-no a ficar fechado na gruta. Preocupado com o desaparecimento do irmão, e lembrando-se da conversa que tivera, Ali Babá decidiu ir procurá-lo à gruta. Logo que entrou viu-o atado de pés e mãos, jogado a um canto. Desamarrou-o e foram-se embora correndo, por entre juras de nunca mais ali voltarem.Porém, quando os ladrões regressaram à gruta e viram que o prisioneiro se tinha evadido, logo pensaram numa maneira de o apanharem e a quem o ajudou.

- Far-me-ei passar por mercador e irei bater de porta em porta em todas as cidades em redor. Porei um de vós em cada vasilha e encherei uma com azeite.

- decidiu o chefe dos ladrões. E lá foram de cidade em cidade, consoante o plano que tinha forjado, até que chegou a casa de Kasim e o reconheceu. De imediato lhe pediu alojamento, ao que este anuiu, sem desconfiar de nada.Mas durante o jantar a criada Frahazada, ao passar junto das vasilhas, ouviu os ladrões a cochicharem:

- Estejam preparados, aproxima-se o momento de os agarrarmos!Frahazada correu a contar a Ali Babá a estranha coisa que tinha ouvido. Resolveram então ferver um alguidar de azeite e despejá-lo em cada pote aonde se escondiam os malvados ladrões. Estes fugiram aterrorizados, com excepção do chefe, que foi preso e entregue aos guardas do rei.Kasim, agradecido, comprometeu-se a dar metade da sua fortuna ao irmão.

- Agradeço-te, mas apenas quero 1/4 para mim. O restante pertence a Frahazada, com quem me vou casar!

Colori, colorado, está o conto acabado!

sexta-feira, outubro 06, 2006

sinfonias

... da chama do entusiasmo deixo a melodia fluir. Persigo-a. Ofegante, aprisiono-a. Outra vez me escapa, desaparece, mergulha num caos de emoções variadas. Agarro-a novamente, seguro-a. Envolvo-a com prazer ... multiplico-a com modulações e, finalmente, triunfo com o tema máximo. Nisto está a sinfonia completa.
Ludwig van Beethoven

terça-feira, setembro 26, 2006

T. S. Eliot

Foto: caricatura de Butterfield no 'Courier', T.S. Eliot (26/09/1888-1965),
Mary Evans Pictures Library

“[…]
E TINHA valido a pena, depois de tudo isto,
Depois da geleia, das xícaras, do chá,
Entre porcelanas, a meio de qualquer conversa de nós dois ,
Tinha valido a pena
Ter rematado o assunto com um sorriso,
Ter estreitado o universo numa bola
E fazê-la rolar, rumo a qualquer questão inevitável,
E dizer: “Sou Lázaro e venho de entre os mortos.
Voltei para vos contar tudo, vou contar-vos tudo” –
se alguém, ajeitando a cabeça dela na almofada,
Dissesse: “Não era nada disso que eu queria dizer.
Não é isso, nada disso.”

Canção de Amor de J. Alfred Prufrock, de T. S. Eliot

quarta-feira, julho 26, 2006

Gente de Dublin

Foto: Alick P F Ritchie em Vanity Fair (1911), George Bernard Shaw -
Mary Evans Picture Library


The worst sin towards our fellow creatures is not to hate them, but to be indifferent to them: that's the essence of inhumanity.

George Bernard Shaw (26/07/1856-02/11/1950), The Devil's Disciple

domingo, julho 23, 2006

Coragem

O objectivo da vida é o desenvolvimento próprio,
a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo. Hoje em dia as pessoas têm medo de si própias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmos. É verdade que são caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres.
Mas as suas próprias almas morrem de fome e estão nuas.
A coragem desapareceu da nossa raça e se calhar nunca a tivemos realmente.

Oscar Wilde
O Retrato de Dorian Gray

quinta-feira, julho 20, 2006

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, julho 13, 2006

A perfeição das coisas

Se eu não morresse nunca! e eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas!

Cesário Verde


Pormenor do painel Le Métro, Maria Helena Vieira da Silva.
Fotografia: Paulo Cintra e Laura Castro Caldas



terça-feira, julho 04, 2006

Revista Bíblia


Projecto que conheci há cerca de um ano, a revista Bíblia é um espaço de experimentação nas tendências contemporâneas das artes visuais e da literatura. Caracteriza-se pela variedade das áreas artísticas que abrange como a ilustração, desenho, fotografia, pintura, design, banda desenhada, video prints, prosa, conto e poesia. A revista não exclui abordagens á arquitectura, cinema, teatro e música. Pelas páginas da revista, que funciona como espaço de encontro de uma geração ja passaram cerca de 600 colaboradores nacionais e internacionais.

domingo, julho 02, 2006

Eye Clock - George Nelson, 1957

Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podíamos ser divididos em quatro categorias consoante o tipo de olhar sob o qual desejamos viver.

A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anónimos ou, por outras palavras, o olhar do público. É o caso do cantor alemão e da estrela americana, como é também o caso do jornalista de queixo de rabeca. (…)

Na segunda categoria, incluem-se aqueles que não podem viver sem o olhar de uma multidão de olhos familiares. São os incansáveis organizadores de jantares e de cocktails. São mais felizes que os da primeira categoria porque, quando estes perdem o público, imaginam que as luzes se apagaram para sempre na sala da sua vida. É o que, mais dia menos dia, lhes acontece a todos. Os desta segunda categoria, estes sim, acabam sempre por conseguir arranjar os olhares de que precisam. (...)

Vem em seguida a terceira categoria, a categoria daqueles que precisam de estar sempre sob a olhar do ser amado. A sua condição é tão perigosa como a das pessoas do primeiro grupo. Se os olhos do ser amado se fecham, a sala fica mergulhada na escuridão. (...)

Finalmente, há uma categoria, bem mais rara, que são aqueles que vivem sob os olhares imaginários de seres ausentes. São os sonhadores. (...)


KUNDERA, Milan – A Insustentável Leveza do Ser

A Insustentável Leveza do Ser

A fonte do "kitsch" é o acordo categórico com o ser.

Mas qual é o fundamento do ser? Deus? A humanidade? A luta? O homem? A mulher?
Como para esta pergunta, há as mais variadas respostas, assim também há as mais variadas espécies de "kitsch": o "kitsch" católico, o protestante, o judaico, o comunista, o fascista, o democrático, o feminista, o europeu, o americano, o nacional, o internacional, etc., etc.
(...)

Numa sociedade onde coexistem várias correntes políticas cuja influência se anula ou se limita reciprocamente, sempre se vai conseguindo escapar à inquisição do "kitsch"; o indivíduo ainda pode salvaguardar a sua individualidade e o artista criar obras inesperadas. Mas, nos países onde um único partido detém todo o poder, não há escapatória possível ao império do "kitsh totalitário".

KUNDERA, Milan - A Insustentável Leveza do Ser

Não deixem morrer os sonhos

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem destrói o seu amor próprio, quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajecto, quem não muda as marcas no supermercado, não arrisca vestir uma cor nova, não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos, corações aos tropeções, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo, não tentando um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.

Estejamos vivos, então!
Pablo Neruda
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